Se eu pudesse voltar no tempo, daria esse conselho a mim mesma
Querida eu,
Se eu pudesse voltar vinte anos atrás, sentava-me à tua frente com calma. Não para te julgar — fizeste o melhor que sabias — mas para te dizer coisas que ninguém te disse. Ou que disseste a ti mesma e ignoraste.
No início, era bonito. Havia amor, desejo, planos ditos em voz alta e outros só imaginados. Éramos um casal. Ríamos. Tocávamo-nos. Escolhíamo-nos.
Depois vieram os filhos. Dois filhos lindos. E eu dei-me inteira a eles, como se isso fosse a única forma certa de amar. Fui mãe com tudo o que tinha — e com tudo o que era.
O problema, querida eu, é que enquanto eu crescia como mãe, fui encolhendo como mulher.
Anulei-me. Primeiro devagar, quase sem perceber. Depois por completo. Deixei de perguntar o que eu queria. Deixei de sonhar em voz alta. Passei a existir em função dos outros.
E nós, enquanto casal? Fomos ficando para depois. O romantismo foi-se perdendo entre rotinas, cansaços e silêncios. O companheirismo transformou-se em logística. Conversávamos sobre filhos, contas, horários — raramente sobre nós.
Dormíamos na mesma cama, mas afastávamo-nos por dentro.
Eu achava que era normal. Achava que era uma fase. Achava que amar era aguentar. Que ser forte era calar. Que ser boa mulher era não incomodar.
Não era.
Hoje percebo que, ao anular-me, também anulei o casal. Porque uma relação não sobrevive quando uma das partes desaparece. Não há desejo sem identidade. Não há amor vivo quando só sobra função.
E depois de vinte anos… veio o fim. Um fim seco. Um chuto no cu que me acordou de uma vida vivida em piloto automático.
O que mais dói não é o abandono. É olhar para trás e perceber que deixei de ser eu muito antes de ele ir embora.
Por isso, se eu pudesse voltar no tempo, dir-te-ia:
Não te apagues. Não te sacrifiques até não sobrar nada. Não deixes o casal morrer em nome da família. Não aceites migalhas de presença. Não confundas amor com esquecimento de ti.
Ama os teus filhos — mas ama-te também. Ama o teu parceiro — mas exige reciprocidade.
Hoje estou a reaprender quem sou. É estranho. Assusta. Às vezes dói mais do que o fim. Mas há uma coisa que sei: ainda estou aqui. E desta vez, não me vou abandonar.
Com carinho, Eu

0 Comments